sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

11/02/2016 - Camino de Santiago

Pode ser que eu esteja reclamando de barriga cheia, ou que eu tenha ficado mimado pela mamãe Dublin, mas a verdade é que fora o frio do caralho eu quase não senti a diferença da vida antiga em Manaus. Tô escrevendo aqui do trabalho, acabei de terminar e tô precisando esperar o busão porque o Luas tá em greve esses dias. Amanhã é o meu primeiro dia de férias em sete meses, mas aqui o trabalho pareceu uma eternidade. 

Vou mudar de assunto. Tô até sem saco pra falar de trabalho saporra.

Quarta que vem eu vou pra Espanha... Vou fazer o Camino de Santiago, o Inglês. O lance dessa trip é que vou deixar tudo acontecer por si só. Simplesmente comprei as passagens e vamo lá. Serão dias pra esquecer de mim completamente, na verdade nesses últimos dias eu tava numa minideprê, e isso abriu uma puta de uma crise existencial. Cara, eu vivo tendo essas crises, mas parece que dessa vez o bagulho é sérião mesmo. Vamo lá falar dessa merda.

2009. Eu tinha lá uns quinze anos e tal, era da igreja, escrevi umas poucas músicas e toquei elas com uma banda. Me senti a pessoa mais feliz do mundo, só ensaiando com eles um som quebrado e tosco. Tive vontade de me CHAMAR DE CANTOR. Daí aconteceu uns paranauês aí e a banda acabou. Saí da igreja, briguei com o pastor e ameacei ele de morte. Fora da igreja, um monte de coisa aconteceu, comecei a namorar, fiquei apaixonado e tal, daí já sabe né... Escrevia músicas pra provar pra mina que eu era um cara foda (se ela ler isso eu tô muito lascado hahaha), e comecei a escrever músicas "mundanas". Mano, eu toquei algumas dessas músicas com uma rapaziada ae também, foi muito foda.

O lance de escrever é o seguinte. Você escreve qualquer porra aí. Daí você se acha o super-foda pica das galáxias rei do universo que vai fazer o caralho na porra toda. Por um tempo. Geralmente é mais ou menos uma semana, mas às vezes demora mais tempo pra você se tocar que não era essa coca toda. Nesse blog mesmo eu leio as coisas que escrevi no início e fico PUTA MANO QUE IDIOTA ESSE CARA. Possívelmente eu vou ler isso aqui e pensar exatamente a mesma coisa daqui a uns anos. É a vida, cara. Mas hoje eu tô até evitando escrever qualquer coisa, música, poesia, qualquer coisa. Quero sair de mim um pouco.

O foda de admitir é que sim, eu já escrevo minhas merdas há alguns anos. Digo que já mostrei pelo menos 10% delas pra alguém. Amigos próximos, meninas que eu queria comer, gente que elogiava o que eu escrevia. Mas é aí que mora o perigo -- a galera elogia e você não tem certeza se foi sincero. É OK encorajar algum amigo que não é tão bom nisso e tal, mas como saber se o que você faz é bom de verdade? E se for bom, será que é bom o bastante em relação aos seus planos? Será um bagulho bom e profissional, ou só um hobby de um tiozão barrigudo de cerveja?

Preciso na verdade encontrar uma maneira de me separar dessa pessoa que recebe os elogios, esse ego fdp. Ele na verdade é o maior inimigo do artista, da criatividade. Enfim, minha viagem pra Espanha será a última vez que vou me fazer a tal pergunta -- é isso mesmo que você quer pra sua vida?

(continuar a escrever sobre escrever)

Sharon

Só preciso registrar isso aqui antes que eu chegue no trabalho, outro dia comece e eu esqueça alguns detalhes do que aconteceu ontem. Eu tô escrevendo no ônibus ouvindo The Lumineers, e tô felizaço porque consegui ingressos (!) pro show deles aqui!!!

Mas ok, vou escrever sobre uma garota que de certa forma me ajudou. Como já devo ter dito, escrevi um livro para uma outra guria que eu conheci no natal de 2014 (caralho como o tempo passa rápido) e de fato, levei muitos meses de cachaçadas pra ir deixando ela pra lá. Outro dia talvez eu escreva mais sobre essa aí. Mas não é dela que eu vou falar... É dessa outra minha colega de trabalho que me ajudou a esquecer dessa primeira que eu escrevi o livro. Complicado? Sei lá.

Então, acontece que na minha cabeça a mina tinha alguma coisa bastante em comum no íntimo dela. Ela era gata, sim, mas havia algo nela que me deixava muito intrigado. Escrevi uns oito ou nove trecos falando dela, e quando escrevo sobre alguém é porque o bagulho eh loko hahahaha... Daí começamos a trocar snapchats todos os dias, quase o dia inteiro. Isso aí fez o escritor de merda aqui entrar no modo abestalhado, ele se apaixonou pela mina. O problema dela é que a mesma atenção que ela me dava, ela dava pra um monte de amigas, a mina simplesmente ficava 24 horas na porra do celular, e digamos que eu passava uma ou duas horas falando com ela, NOSSA, isso pra mim é casamento!!

Tomei no cu depois ao me dar conta disso, e quando ela me disse que tinha namorado. Tive uma microsofrência por causa dessa bosta, que virou uma depressãozinha de Janeiro, a tal da January Blues... Hoje é dia 12 de fevereiro, posso dizer que já superei essa guria, principalmente depois do papo que tivemos ontem. Já nem teclava mais com ela, só falava mesmo uma vez ou outra quando trabalhávamos juntos. O papo foi normal, daí perguntei:

-- O que você faz no tempo livre?

Ela disse que não consegue ficar em casa sozinha. Já era o suficiente pra eu saber que ela não tinha nada a ver comigo. Daí a mina disse que sai pra fazer compras

-- COMO ASSIM? TODOS OS DIAS?

Sim. Todos os dias. Gastou 200 euros numa tarde, andando de um shopping na casa da porra pra outro na casa do caralho. Eu fiquei tipo, GENTE DO CÉU...

Só de lembrar disso eu tô sentindo náuseas de novo. Não é nojo, não, mas é um sentimento bem escroto, chamam isso de gastura. Cara, eh um sentimento de MAS QUE BOSTA MANO!

Tratei de sair de perto dela na mesma hora.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Lições que a vida na Irlanda me trouxe!!!!

1. E a mais importante. EU NÃO SOU ESPECIAL! Não sei por quê o caralho eu pensava que era diferente. Mas adivinha sóóóóóó.... NÃO!!! Obrigado, Europa por abrir meus olhos. Na verdade a minha infância não foi a mais difícil de todas, nem talvez a mais brilhante de todas. Tudo bem, meus pais se separaram aos meus oito anos, mas depois disso a minha vida foi igual a de muita gente por aí. Normal, segue o bonde! Simplesmente a vida peida na sua cara fudido e a única coisa que você pode fazer é peidar de volta. Nessa nossa vida, muita merda acontece, cara... E com isso vem o número DOIS...

2. QUANTO MAIS SE FODER, MELHOR! Siiiiiiiimmmm, amiguinho, quanto mais a vida peidar na sua cara, mais você aprenderá a responder com melhor qualidade. A palavra pra isso chama-se resiliência. Morar sozinho não é nada fácil, e nos momentos difíceis pode não haver ninguém nem pra te escutar. Claro, não tô falando de emprestar grana ou esse tipo, mas tô falando daqueles momentos que você deita pra dormir e o primeiro pensamento vem na forma de "que diabos eu tô fazendo da vida?"

3. TUDO DÁ CERTO NA HORA CERTA, maaaaaaaas..... Não conte com isso!!! Claro, muitas vezes nos embolamos com coisas nada a ver, maaaaaaaaas... Morando sozinho principalmente, o negócio é, se você não se mexer, fio, ninguém vem resolver suas cagadas... Porém, acima de tudo... Otimismo é uma chave pra uma vida feliz, meu amiguinho hedonista.

(Cara, tô ficando adulto mesmo pqp... Olha o texto que tô escrevendo)

4. NÃO TÁ ESCRITO, NÃO FOI DE VERDADE. Eu escrevo bastante esse tipo de texto bizarro, falando comigo mesmo, há cinco ou seis anos eu acho. E CARA, fico aqui pensando o que seria de mim se não tivesse escrito algumas coisas, tipo a minha melhor transa, ou MEU! O livro que escrevi sobre um amor verdadeiro, sério, um ano depois, já existem coisas que se eu quiser lembrar ficaram escritas... A mente é esperta, esquece rápido, só que o escritor é bobo, ele pode lembrar e até sentir coisas de novo. Isso sim é um lado horrível em escrever. (Eu amei uma garota muito loucamente ano passado, outro dia eu compro um vinho e escrevo sobre isso ok)

5. VAI ATÉ O FINAL, PORRA! Eu falo muito palavrão, eu xingo como o caralho. Desculpa ae. Mas é uma das lições que ainda tão no processo de aprendizado... Meu, eu gosto de muita coisa diferente, muitos assuntos diferentes me atraem, o que eu posso fazer? Isso é a alma do hedonista, pular de galho em galho, procrastinar, ser feliz de cinco em cinco minutos. Mas a sensação de terminar algo por completo é maior que qualquer felicidade express. Cara, quando terminei o livro foi algo assim, CARALHOOOOOOO MANO EU TERMINEI ESSSA PORRAAAAAA!!! E vamo falar aqui, pra ser levado a sério, você tem que levar suas coisinhas a sério também né... Não ficar planejando quadro de jeans-art e deixar por meses na gaveta pra terminar...

6. PERDER-SE É BOM, mas não é tudo. Hoje eu vejo que consegui aquilo que tanto buscava, viajar dentro da minha existência e essas parada chapada que eu curtia... Só que no final desse caminho, é a mesma coisa... Você encontra o seu diamante, você se conhece por dentro, mas a verdade é que NINGUÉM VAI TE CONHECER DE VERDADE, exceto você mesmo, claro (se você se encontrar), e o amor da sua vida (se você o encontrar depois de ter se encontrado).

OK. Fiz essa listinha aqui e já deu pra mim hoje, tô com sono. Amanhã trabalho e acordo cedo porque o Luas tá em greve... Talvez amanhã eu escreva um pouco mais sobre qualquer bosta, beleza?

Paz

Mas olha quem tá de voltaaaaaaaaaaaaaa

Então, pois é. Eu gosto mesmo de escrever, isso é uma bosta. Tenho outros dois blogs soltos por aí, mas o Hedonistando foi o que eu mais me identifiquei como sendo o meu diário. Nesses textos de 2014 eu era um pouco diferente (sério?), mas foi aqui que escrevi umas boas verdades que hoje já tinha esquecido.

Durante os últimos dias eu fiquei sem escrever absolutamente porra nenhuma. Sinceramente, o início do ano até agora tem sido pouco produtivo e muito louco, atualmente eu tô no meio de uma guerra entre mente x coração. Uns troço muito louco cara. Daí o que o André vai fazer pra respirar um pouco? Ele vai e escreve no blog secreto dele haha

Sim, eu voltei. E pra que fique de lembrança porque eu sou o fdp mais esquecido do planeta, esses são meus outros dois blogs. Lá eu escrevo um monte de bosta também:

Lixeira (Tumblr) - http://lixeirada.tumblr.com/
==> Aqui o lance é mais poetista e tal, rola umas prosa manera, contos e baboseiras afins.

Lixeira do Cafa (Wordpress) - https://lixeiradocafa.wordpress.com/
==> É o protótipo do Lixeira no Tumblr, mas nesses dias eu andava escrevendo uns textos mais longos.

E pra fechar, vai ser no Hedonistando que eu vou trocar uns segredos (o que eu puder, claro) com o André que vai ler daqui a alguns anos de novo.

Paz,

André

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Antagonismos e contradições

André,

Não há a menor dúvida de que você é esquisito viu? Você tem algum transtorno psicológico que eu só não classifiquei ainda por causa da preguiça e porque eu sei que rótulos são indiferentes para suas atitudes. Olha, sabemos muito bem o perigo disso, e tenha certeza de que perderá muitas coisas boas na vida por isso.

--

Eu não sei se é um dilema particular que crio algumas vezes ou se é algo genérico como uma esquizofrenia ou bipolaridade, mas nessa fase de conhecer melhor a mim mesmo vejo meus pensamentos se polarizarem e inverterem várias vezes; ora me sinto corajoso e confiante, ora sou preguiçoso e covarde. Penso o dia inteiro em alguma ideia e a toda a noite em outra contrária.

Naturalmente me sinto à vontade para socializar com qualquer pessoa, mas não conversaria nem mesmo com o próprio Deus caso ele não me encontre em um bom momento. Isso faz de mim uma pessoa ruim? Dou um valor enorme à privacidade, e caso esteja a requerindo direta ou indiretamente, é ótimo respeitar. :)

Em alguns momentos eu gostaria de me conformar com uma vida pacata e um amor tranquilo, uma rotina qualquer, uma cidade normal e um emprego ok, desde que não passasse por momentos assim, mas seria uma covardia tremenda com meu 'eu' pensante deixá-lo pra lá. Nossa, talvez eu esteja complicando demais, mas eu acho que ser o André é muito difícil!

Que crise existencial desgraçada. Tomara que você passe logo (ou não?)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Por que escrever?

Hoje eu li brevemente a biografia de Clarice Lispector (isso me torna gay?), e em certa entrevista ao "O Globo" em 1976 foi indagada com o questionamento:

J.C. "— Por que você escreve?

C.L. "— Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?"


J.C. "— Por que bebo água? Porque tenho sede."

C.L. "— Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva."


Disponível em: http://www.releituras.com/clispector_bio.asp

Minha realidade é que faz um bom tempo que não consigo produzir ideias sólidas e sinto minha capacidade criativa apagada. Poderia indicar inúmeros responsáveis por isso, mas seria um tanto injusto, afinal, a criatividade é uma aptidão que depende da disposição do homem para ser lapidada.

Não sou igual a ela, de forma alguma. Mas a sagacidade da resposta me fez pensar o dia inteiro.

"O mundo por si só exerce um esforço sobrenatural para reduzir nossas capacidades criativas e racionais, e assim tornam-se grandes herois aqueles que reconhecem essa realidade como trivial e não somente se defendem, mas contra-atacam e mostram personalidade ao serem vistos como estranhos e ousados."

Quando a criatividade acabar, estarei morto; é uma chama que preciso manter acesa enquanto tiver de pensar sobre minha existência. Sei que minhas ideias são traduzidas para a língua dos homens com enorme dificuldade, e, para não ser visto como louco (como posso estar sendo agora) sei que é preciso de prática. Muuuuuuuita prática. Sonho com um mundo melhor, em qualquer continente. E sonho muito mais em conseguir traduzir a língua dos anjos para a língua dos homens algum dia, em um texto ou em uma música. Talvez no milésimo texto ou na milésima canção eu consiga, desde que não pare de escrever.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Uma Carta para Si Mesmo

"Olá, você. Talvez eu nem precise mais escrever o restante da carta porque você já sabe do que se trata, ou provavelmente tenha esquecido. Eu sou alguém que talvez você já não seja mais, pois presumo que tenha adquirido grandes experiências na sua vida e não pense mais da maneira como eu penso hoje. A vida é como um rio que nasce na mais pura fonte e segue aos poucos seu caminho, acumulando impurezas durante o seu curso e contemplando as mais diversas paisagens e suas histórias sempre únicas. Desde o início o rio sabe exatamente aonde irá terminar, e no caminho ele se torna parte da natureza -- apesar de estar apenas de passagem -- sempre sendo observado por todo tipo de árvores que já viram todos os tipos de águas correrem por ali. O fato é que cedo ou tarde o rio irá terminar, e querendo ou não ele não será mais apenas um rio, e sim um mar em sua eternidade.

Desde pequeno, você tinha desejos diferentes e agia com bastante singularidade. Lembra que quando criança você criou vários jogos de videogame com histórias originais, que só você sabia jogar e só você entendia as histórias? Os  seus brinquedos atuavam tão bem que não pareciam ser compreendidos quando outras crianças brincavam com eles. Você aos doze anos havia criado um planeta para eles, e cada boneco tinha a sua história e personalidade, como se realmente existissem. Lembro que você havia criado até uma liga de futebol neste planeta, com centenas de jogadores diferentes, e torneios que eram disputados quase sempre. E como sempre acontece, você começou a achar estranho continuar agindo dessa forma, e as histórias que eram sempre tão divertidas foram simplesmente perdendo a graça. Foi quando você começou a escutar hip-hop e decidiu se tornar um rapper, isso aos treze anos. Você cantava seus raps na frente do espelho, como se estivesse fazendo um show para uma multidão, e tentava se vestir exatamente como os seus ídolos da época. Chegou inclusive a cantar na sala de aula para seus amigos, e até formou um grupo, com suas músicas próprias que falavam de coisas que ninguém entendia, e algumas eram até em inglês! Um único detalhe: você não sabia inglês. Foram tempos tão divertidos que parecem ter passado depressa demais. Mas, como sempre acontece, você se deu conta de que não se pode falar uma língua que ninguém conhece, e isso também foi perdendo a graça.

Na escola, você era sempre divertido e falava com todos, mas as notas não eram as melhores. Na verdade, você não ligava muito pra escola e a única coisa que sabia era que se tirasse notas vermelhas iria ter que se entender com a sua mãe. Brincar era mais divertido. Lembra daquela surra que você levou no dia em que cabulou a aula para jogar videogame justamente no dia que sua mãe foi te procurar na escola? Você sempre se apaixonava pelas garotas mais velhas com quem não havia a menor chance, e morria de timidez quando alguém dizia que estava gostando de você? Queria sempre parecer um cara legal e durão, mas levou uma surra histórica de um garoto na frente de todo mundo, e foi hilário. Na verdade, brigar e namorar nunca foi o seu forte, pode ter certeza. Você se tremia todo na primeira iminência de uma briga ou de um namoro, seja lá com quem tenha sido. Afinal, brincar era mais divertido.

Você cresceu um pouco e aprendeu algumas lições importantes, como a de que não se pode ser legal para todo mundo. Não dá pra ser o orgulho da família e a decepção dela no mesmo dia. Não dá pra fingir que não está bêbado quando seu corpo transpira álcool. Você foi músico na igreja, e até tocava lá. Mas durante a semana você achava mais legal ser a pessoa que a igreja não queria que fosse. Era engraçado, mas mesmo assim você tinha quase tudo para ser um bom líder, ou pastor, sei lá. As músicas que escrevia eram legais, mas era chato suportar as orações e os cultos que nunca terminavam. Brincar sempre era mais divertido. Ainda bem que a vida te deu um empurrãozinho pra escapar dessa dualidade, e começar essa busca pela sua personalidade e pelo seu lugar nesse mundo. (Quer dizer, o que realmente estamos buscando?)

Depois disso, você começou sua viagem em meio as bebedeiras e os perigos de uma vida descontrolada. Aos dezesseis anos você bebia destilados, fumava cigarros e já tinha experimentado maconha. Já havia se acostumado com as retalhações dos familiares distantes e dos antigos amigos da igreja. Decidiu ser assim e pronto. O problema é que ainda faltava concluir o ensino médio, e pra isso era necessário tirar notas boas, e pra tirar notas boas era necessário ir às aulas. A vida era uma constante bagunça, era uma brincadeira que se repetia todos os dias. Foi quando Deus viu que você precisava de mais um empurrãozinho e te deu uma namorada e um emprego. Agora sim tomaria jeito. Mas você preferia tomar cerveja.

Você conheceu o seu sonho e a sua namorada no mesmo dia. Disse a ela que queria conhecer o mundo, com um leve propósito de impressionar a garota. Assim, você conseguiu a garota e conheceu o Maior Desafio de Todos: tornar esse sonho real. Nos seus momentos mais covardes você se arrependeu de ter descoberto o que você realmente queria fazer da sua vida, pois é um desafio e tanto.

Não me lembro de ter visto alguém tão sortudo como você foi. Conseguiu uma namorada fiel e simpática, um bom emprego, uma bolsa para um bom curso de engenharia. Mas não era tão legal assim sair de casa no amanhecer e voltar no começo da madrugada, porque não se via ninguém na rua! Foi o ápice da autodestruição. Tentava compensar a falta de diversão do cotidiano nos finais de semana regados a bebedeiras sem fim, e atitudes desordenadas. Você traía sua namorada e passou a beber mais, fumar mais, e conheceu a cocaína. Foram longos meses. Você só decidiu parar porque percebeu que estava se tornando um zumbi e seu nariz sangrava quase sempre que tocava nele. Foi uma ótima decisão.

O rio da sua vida continuou correndo e você agarrou a oportunidade de um emprego melhor, em uma compania maior. O problema é que as grandes companias não deveriam ter funcionários humanos. Talvez até os robôs se rebelariam contra elas. Na verdade, as grandes companias não deveriam ter funcionários. Você viu pessoas novas, conheceu mais oportunidades para trair sua namorada, e viu cada vez menos tempo para ela. Então longos anos se passaram até você perceber o sentimento de amor novamente correndo em suas veias. Em troca da sua namorada, você descobriu o verdadeiro significado da amizade em quatro pessoas totalmente diferentes que se conectavam entre si sem a menor dificuldade. Só que você tinha um grande sonho pra realizar, Sr. André.

Hoje é o melhor dia de todos para ter dedicado estas palavras a você, companheiro. São meia noite e amanhã você tem contas a pagar e um dia de trabalho para cumprir. Não faço ideia do que poderá ocorrer nas próximas 24 horas. Você pode encontrar o amor da sua vida, ou um final para sua história. Você pode mudar de opinião, como nunca quis admitir, e deixar de ser a pessoa que você é hoje, afinal, este é um risco que todos nós corremos diariamente pelo simples fato de existir. Hoje eu não faço ideia de como você foi daqui alguns anos, ou como você será daqui a alguns anos. Nâo tenho tanta certeza se algum dia você chegará a ler isto, mas espero que continue sabendo que tudo passou, e você continua. Passaram-se os anos, os carros, as casas próprias, os celulares da moda, as redes sociais, as músicas, as mulheres bonitas, a virilidade, as desilusões, as alegrias, as histórias, o passado. Tudo isso se passou, e você sobreviveu. Espero do fundo do coração que você não tenha desistido da sua vida, e lembre de como você sempre foi louco. Agora por favor, o que você me contaria de bom? Aguardo ansiosamente por uma resposta!"

(Por gentileza entregar isto ao Sr. André Picanço no dia 01 de Junho de 2054)